Este texto, com foco no protagonista ativo, representa apenas a perspectiva do personagem principal; não é para fãs de nenhum tipo específico, obrigado. * Segunda parte de “Mafia Cafajeste”. Não ter
A noite era como água.
Na casa de madeira, por entre as frestas escapava o brilho quente das velas avermelhadas. Um homem de cabelos negros e fartos, envolto numa veste tradicional, pressionava e limpava com um pano algo áspero, passando-o por sua cabeleira solta.
Sobre a mesa baixa à sua frente havia ainda um livro aberto pela metade, e a chama da lamparina tremulava de leve, como se, aproveitando aquele calor, lambesse o rosto do homem diante dela.
Depois do anoitecer, os campos e as matas ao redor emitiam de tempos em tempos estranhos chamados. Nesses momentos, as famílias da aldeia costumavam trancar bem as portas e, salvo necessidade, ninguém ousava sair.
Pois aquele era um tempo de guerra, em que monstros, espíritos e humanos viviam lado a lado.
Se um humano quisesse sobreviver, só lhe restava ser o mais cauteloso possível.
No quintal cercado da casa de madeira, ouviu-se um leve ruído, como se alguém estivesse se movendo às escondidas.
O homem sentado no interior não interrompeu o que fazia; apenas terminou de ler a última frase que ainda lhe faltava e então ergueu o olhar na direção do som vindo de fora.
Era dono de feições belíssimas. Os fios desalinhados que lhe caíam sobre a testa roçavam de leve aqueles olhos indecifráveis, conferindo-lhe uma beleza serena e delicada.
Era um curandeiro que chegara à aldeia havia apenas dois dias. No passado chamava-se Miyazaki Yūki, mas, como a maioria dos plebeus daquele tempo não possuía sobrenome, ele também se adaptara aos costumes locais e se apresentava apenas como Yū