As gerações futuras sempre disseram que a Grande Canção não tinha homens de verdade. Por isso a chamaram de Canção Fraca. Uma Canção fraca não consegue se defender, se contentando em sobreviver em um
O tempo estava um tanto frio.
O magro e débil Shen An avançava com dificuldade. Nas costas, carregava uma menina igualmente franzina. Como um homem maduro e outrora bem-sucedido, Shen An sentia que a vida lhe sorria — até que, ao despertar certa manhã, tudo mudara...
Há meia lua, ele fora lançado no corpo do filho de um funcionário desaparecido...
Ano três da era Jiayou, na dinastia Song do Norte. Era o primeiro mês do calendário, porém Shen An, com a irmãzinha às costas, viajava em meio a uma migração.
—Irmão, e o carrinho? —perguntou Guoguo, a menina, ao despertar e esfregar os olhos com o punho diminuto.
—O carrinho caiu no rio —respondeu Shen An.
Naquela manhã, por não terem mais como pagar a passagem, os mercadores que os haviam acolhido no comboio expulsaram os irmãos sob o pretexto de mudar de rota.
—Irmão, e nosso lar? —Guoguo, agarrada às costas do irmão, desatou a chorar de súbito.— Quero o papai...
Shen An ergueu os olhos para o céu, sem palavras.
Após muito esforço, conseguiu acalmar a irmã. O dia já se adiantava e, sem tempo a perder, apressou o passo.
Quando avistou uma pequena vila ao longe, Shen An estava à beira da exaustão.
A vila resumia-se a uma única rua, efervescente sob a luz do entardecer. Na única taberna do lugar, não havia sequer um assento vago. Shen An tomou a mão da irmã e entrou.
Os comensais voltaram os olhos para os irmãos, mas logo voltaram à atenção às suas refeições.
O aroma de vinho e carne invadiu as narinas; Guoguo lambeu furtivamente os lábios ressecados